POSTO, LOGO EXISTO

Foto: Géssica Hage – Trabalhos para “Viva!”

 

Escrevo como alguém que está prestes a publicar um post. Um indivíduo qualquer do século XXI que entrevê o ato de postar como a única possibilidade de perpetuar a própria existência. Mas nesse exato momento, existe algo que insiste em coexistir: R$ 2.400.000,00 da Lei Rouanet/Ancine para projeto 01416.022516/2017-42. O feito intitulado “A Vida é Mara” possui a finalidade de registrar a rotina e os hábitos de uma blogueira fitness.

Muito embora, o presente cenário macroeconômico, o próprio fato de se tratar de recurso público oriundo de impostos pagos por brasileiros e o revés da proponente ser réu em processos criminais por exercício ilegal das profissões de nutricionista e educadora física, e também, por colecionar advertências no CONAR devido à violação de normas de publicidade, serem fatores determinantes para incentivá-lo a assinar uma petição pública disponível online a fim de revogar o propósito dado à essa verba, meu desígnio enquanto cidadão é supremo: quero te fazer pensar.

O que postamos e o que deixamos de postar? Até que ponto estabelecemos comparações em graus de felicidade de nossas vidas com a de outros internautas? É simples captar que as informações que circulam na rede mundial de computadores pode ser manipulada por qualquer pessoa? Se não é, passa a ser com o exemplo de uma jovem que simulou uma viagem de um mês inteiro a Tailândia sem sair de casa.

Está bem, não foi assim tão descomplicado. A moça precisou convencer os pais a levá-la até o aeroporto para tornar a experiência mais tangível. Em seguida, retornou no mesmo dia à casa e deu inicio ao seu projeto de conclusão de curso. Será que acabo de inventar isso? Enfim, a jovem começou a fotografar paisagens e situações reais que vivenciava próximo de seu local de residência e posteriormente manipulava as imagens através de um programa de edição. Não sei quanto à sua banca examinadora, mas por mim, essa aluna estaria aprovada pela destreza e criatividade com que elaborou sua tese.

Asseguro que se ela chegou a receber os devidos cumprimentos do corpo docente, também foi abordada por colegas de classe com comentários estupefatos da situação de vida que fingia possuir. Mas será que durante toda essa encruzilhada, ela não encontrou sequer um único empecilho que pudesse arruinar seus planos? Imagine você restrito no trânsito apenas do teu domicílio enquanto se depara com fotografias de conhecidos de férias em praias paradisíacas (de verdade) ou cercados de grandes amigos em festas animadas?

Reconheço esse sentimento. Logo que retornei de minha experiência de seis meses de moradia no exterior, me recolhi em casa. A sequência foi mais ou menos essa: no aeroporto, descobri que meu número de telefone brasileiro tinha sido desativado por falta de recarga consecutiva durante três meses. Chegando em casa, me dei conta de que meus perfis nas redes sociais já não condiziam com a minha realidade atual. Optei por deletá-los temporariamente.

A verdade – para os poucos seguidores que possuía, e claro, somente para os hábeis – veio à tona: a viagem terminou. É hora de ansiar por novas e interessantes vidas para serem comparadas com a minha. Esse deve ter sido o primeiro pensamento que lhes ocorreu. Mania estrambólica essa a nossa de se comparar a pessoas completamente diferente de nós que nos faz ser capazes de construir um julgamento de inferioridade de descrédito próprio.

Não pensem vocês que foi somente no momento de retorno ao Brasil que me deparei com situações onde a opção por me ausentar do convívio virtual manifestou uma questionável noção de não existência. Raros foram os amigos que me procuraram para questionar sobre o meu estado de espírito. Menor ainda foi a quantidade de familiares que se sensibilizou com a minha situação oferecendo auxílio no momento de regresso.

Ainda assim, devo dizer: nunca me senti tão vivo. Sim, estou vivo! Recomecei a postar há pouco, e agora sobre uma nova perspectiva. Deixei de contrapor o meu guarda-roupa com o closet de blogueiros de moda ou com as milhares de vitrines estrategicamente pensadas para ofuscar nosso campo de visão. Troquei os likes instintivos em fotografias de casais com sorrisos insinceros por relacionamentos pessoais cada vez mais francos. Substitui o feed de viagens de um influencer qualquer por fotografias fidedignas à vida real. É, a vida agora está realmente ‘mara’, mesmo sem incentivos públicos ou privados.

 

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