TODAS AS CORES

Foto: Géssica Hage – Editorial “Stardust”

 

Há um pouco mais de um século, o mundo presencia as histórias e mitos por detrás das mortes prematuras de músicos famosos aos seus 27 anos. Muitos deles sucumbiram ao uso excessivo de bebidas alcóolicas e/ou drogas, e até mesmo a meios violentos como homicídio ou suicídio. Generalistas dirão “não sobrou nenhum para contar história”. Estou aqui para dizer que sobrevivi aos temidos 27 e posso contar uma história diferente.

Aos 22 anos – no auge de nosso desempenho cerebral, segundo cientistas norte americanos – me deparei com a ruína do meu sistema imunológico. Lembro-me claramente de adormecer no domingo provido de melanócito (célula que dá cor à pele) e de me despertar na segunda-feira desprovido de pigmentação na região facial. Não havia jamais passado pela minha cabeça que o termo médico “vitiligo” pudesse vir a fazer parte de minha rotina.

As manchas claras me acompanham desde então. Levei alguns anos para compreender que minimizar o aspecto visual das manchas não iria deixar de chamar atenção. O uso de corticóides, banhos de luz, fototerapia, cremes imunoduladores, entre outros, me levariam a desenvolver uma terceira cor: a rosa. A essa altura também, minha perda de pigmentação já havia sido controlada e muitas das manchas já haviam regredido. Mas nunca consegui zera-las.

Em 1993, Michael Jackson revelou em entrevista a apresentadora Oprah Winfrey que tornou-se branco devido a mesma doença. Quando o vitiligo se alastra pela maior parte da pele, é considerado normal pela comunidade científica a realização de procedimentos dermatológicos a fim de despigmentar as áreas que ainda permanecem intactas. Bastante contraditório, em “Black or White” o astro eternizou a máxima “não vou passar a vida sendo uma cor”. Mas a vida passou. E em função da cor.

A predileção por luvas e maquiagem e pela escolta por guarda-chuvas mostrava que a despigmentação havia tirado dele uma das proteções contra raios ultravioleta, mas também sua identidade. This is it: não estou aqui para julgar Jackson. Entendo perfeitamente o que é ser privado de contato humano devido ao medo de contágio, que deixemos claro aqui aos desavisados, é nulo. Mas só quem é notado de maneira distinta é que pode compreender, de fato.

E foi aí, realmente, que eu compreendi. Temos utilizado o termo “cor” erroneamente durante muitos anos. Nos referimos a uma pessoa por sua pigmentação, desprezando sua etnia, ascendência e importância. Aliás, a importância, se podemos chamá-la assim, é dada pela cor. O negro é escancaradamente notado na sociedade quando abordado diariamente pelo simples fato de ser “preto”. Mas o que o policiamento, e muitos cidadãos não sabem, é que na teoria, na cor-pigmento, o preto é a mistura de todas as cores.

Quer aparência mais completa que essa? Não há! Mesmo assim, ainda insistimos em atirar o pau no gato por ele ser preto e nos remeter ao azar. Mas não rejeitamos o pretinho básico quando em dúvida do que trajar em um jantar luxuoso. É, esse mundo de aparências ainda vai nos confundir muitas vezes. Para evitar a cegueira branca como escreveu Saramago, só há uma saída: fazer aparecer suas cores autênticas, aquelas que brilham de dentro, que tem vivacidade e que são lindas por serem reais.

 

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